Paço & Compasso - 4.ª edição
Há noites que não se repetem, e o Paço & Compasso foi feito delas, de momentos únicos, onde a arte não se apresenta, mas acontece. E foi, de facto, uma noite irrepetível. Um silêncio cheio de expectativa deu lugar ao fado que não se ouviu apenas com os ouvidos, mas que se sentiu com o peito. Mauro Resende, na viola de fado, trouxe consigo a alma de um país inteiro. Acompanhado por André Dias, na guitarra portuguesa, as cordas soaram como confidências, e a voz de Filipa Biscaia percorreu a sala como quem conhece todas as saudades.
Entre os acordes e os silêncios cheios de presença, a noite abriu espaço às palavras. Ana Borges leu um emocionante poema dedicado à escrita, criando a atmosfera certa para o momento que se seguia. A sua leitura trouxe uma reflexão breve, mas certeira, sobre o poder das palavras, preparando o público para mergulhar no universo íntimo do livro “Um Verão Sem Ti”, de Alexandra Ferreira. A apresentação da autora esteve a cargo de Carminda Gonçalves, que traçou com sensibilidade o percurso biográfico de Alexandra Ferreira e as estradas pessoais e criativas que conduziram a esta obra. O livro trata-se de uma narrativa feita de ausências que doem e de memórias vivas, onde cada página é uma estação do sentir. A autora conduziu os presentes por entre fragmentos do íntimo, tocando emoções com a delicadeza de quem escreve para curar e para recordar.
Com esta edição, o Paço & Compasso despede-se, pelo menos por agora, deixando na memória quatro eventos memoráveis, que se revelaram em forma de sons, imagens, palavras e sabores, mas sobretudo em forma de partilha.
"Esta foi uma viagem que começou com passos tímidos, quase como quem entra em silêncio numa casa antiga, sem saber o que vai encontrar. Mas a cada edição, a arte foi ganhando espaço e terminou com a certeza de que valeu cada nota, cada palavra. Hoje não se fecha um ciclo, abre-se, antes, a vontade de continuar a imaginar e construir lugares onde a cultura tenha casa, pertença e futuro. E que essa casa, como esta, tenha sempre portas abertas à criatividade e à partilha. Porque quando a arte entra, nunca mais saímos iguais”, concluiu José Damião Melo.
